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26 agosto, 2005

Vai ouvindo, vai ouvindo


Volto a escrever depois de uns atribulados dias. Bem, dissertação é coisa séria (pelo menos a faço ser). Escrevo pra parar de escrever... Mas estou ainda na busca de inspiração. Pra tudo! E a inspiração vem de onde? Perguntariam Ney Matogrosso e seu amigo Pedro Luis.
E como ter inspiração nos dias de hoje? Vou deixar um pequeno "clipping" de notícias. Tirem suas próprias conclusões.
Vão ouvindo, vão ouvindo...
1) Crise de medicamentos: O governo não tem dinheiro pra comprar os remédios, muito menos a população. Mas e ai? Quem ganha com isso? As funerárias e a indústria farmacêutica.
Custo do remédio pra hepatite C => R$ 3,00 (três reais)
Preço médio de venda do remédio pra hepatite C => R$ 1000,00 (mil reais)
2) Os 10% mais ricos têm 32 vezes mais dinheiro que os 40% mais pobres no Brasil, segundo as últimas estatísticas.
3) Até agora só garanto que eu não tenha recebido mensalão. E mesmo assim vai que eu recebi num dia em que fiquei bêbado e perdi a memória?
4) Grande estréia do cinema catarinense da última semana: MADAGASCAR (isso sim é lançamento...)
Já começou com briga. Um juiz probibiu a sua exibição em Joinville porque o dito fazia menção a uma "balinha". Muito bom... Estou imaginando daqui uns anos... Proibirão meu filho de cantar a clássica música do colelhinho. "De olhos vermelhos?? Maconheiro", "De pêlo branquinho? Racismo! Como não contemplar a diversidade?", "Comer uma cenoura com casca e tudo? Pouca vergonha!", "Se ficar barrigudo tem que casar!"
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Segunda-feira consegui ir a uma apresentação do Paulo Freire. Na realidade o show ficou prejudicado, falaram o horário errado... Ouvi duas músicas... Mas em compensação eu consegui conversar com ele depois por bastante tempo, foi bem legal, e acabei comprando dois CD's. Já pensou em viola com distorção? Heavy caipira? Jazz com viola de cocho? Pois é, "Vai ouvindo - Paulo Freire Trio". Bem legal, experimental...
O engraçado foi que, pensando nessas misturas, o novo e o antigo, quando tirei o CD do som do carro a voz-do-Brasil dava uma notícia: "Colombo diz que as ilhas...". Desliguei. Imaginei Cristóvão Colombo chegando nas Américas dando sua notícia ao vivo via satélite. Filmaria as índias nuas e mais um juiz proibiria a exibição em horário nobre para que as crianças fossem poupadas...

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Vão ouvindo, vão ouvindo...
Será que assim como pra tocar blues ou moda de viola existe pacto com o Diabo pra fazer dissertação? Chirrin dissertação aparece, Chirrión o prazo vai embora (pra quem lembra do episódio do Chapolin, rsrs)...
Melhor ouvir do que ser surdo?
Inté!

19 agosto, 2005

A vida é a arte do encontro...


... apesar de haver tanto desencontro pela vida.

Mais uma do grande poeta Vinícius. Mais uma que deve ser lembrada. A arte é do encontro, mas o acaso torce pelo desencontro. Atualmente é de desencontros que o mundo se move. Ninguém mais acorda, dorme, almoça, janta, ao lado de outra pessoa. Cada um com seu horário, cada um com seu comprometimento, cada um com sua vida! Seria uma grande ilusão pensar naqueles dois que olhariam juntos para o teto vendo o tempo passar... Para to teto??? Tempo passar???? Tempo é dinheiro!!!! Não o tempo livre, mas o tempo ocupado. Então o que fazemos? Anulamos todo o tempo livre, o transformamos em tempo ocupado e fazemos mais dinheiro! Onde fica agora a diferença pra escravidão? O máximo que poderiam dizer é que mudamos de senhor (o que eu ainda me pergunto se é verdade mesmo).

Lembro do poema de Zé da Luz. Um cordel maravilhoso. “Ai se sesse”. “Se um dia nóis se gostasse / Se um dia nóis se queresse / Se nóis dois se empareasse / Se juntim nós dois vivesse / Se juntim nóis dois morasse / Se juntim nós dois drumisse / Se juntim nois dois vivesse...”

Que nostalgia de um tempo que não vivi! Imagine Zé da Luz em São Paulo? “Se juntim nóis dois se engarrafasse”? “Se juntim nóis dois corresse”? Ou “Se juntim nóis dois se desencontrasse”?

Fica o paradoxo para vocês!

Hoje quando acordei vi uma reportagem sobre bailarinas. Que leveza... Sempre fico meio abobado ao ver uma apresentação de ballet. Ainda mais quando disseram – o que já se imagina – que os movimentos que uma bailarina faz não foram projetados para o nosso corpo. Ninguém foi feito para esticar tanto as pernas, para se curvar tanto, para dançar na ponta dos pés (com aquele pedaço de gesso na sapatilha, pra quem não sabe!).

Mas em meio à beleza da dança, a correria dos bastidores, as horas incansáveis de ensaio, treinos intermináveis... O horário nunca combina... Imagine uma bailarina que dança, trabalha, estuda, arruma casa, tem compromisso, vai ao mercado, ao dentista, ao médico, tem prova amanhã à noite, mas uma reunião importantíssima pela manhã... Ahhh, e meu ensaio??? A apresentação é no sábado!!!!

Por isso que ao lembrar de bailarinas, lembro do Chico Buarque. “Só a bailarina que não tem...”. Aposto que você pensou nessa música! Errou, nunca lembro dessa. Lembro de “Ela é dançarina”:

“O nosso amor é tão bom
O horário é que nunca combina
Eu sou funcionário
Ela é dançarina
Quando pego o ponto
Ela termina

Ou: quando abro o guichê
É quando ela abaixa a cortina
Eu sou funcionário
Ela é dançarina
Abro o meu armário
Salta serpentina

Nas questões de casal
Não se fala mal da rotina
Eu sou funcionário
Ela é dançarina
Quando caio morto
Ela empina
Ou quando eu tchum no colchão
É quando ela tchan no cenário
Ela é dançarina
Eu sou funcionário
O seu planetário
Minha lamparina

No ano dois mil e um
Se juntar algum
Eu peço licença
E a dançarina, enfim
Já me jurou
Que faz o show
Pra mim”

Se 2001 já passou, devo esperar 2021?
É a arte do encontro? Mas tem muito desencontro pela vida...

Hoje não me preocupo mais. Cito de novo Vinicius (ou Toquinho, não sei bem depois de tanta simbiose. Devem ser os dois mesmo!). “Eu não ando só, só ando em boa companhia, com meu violão, [a dissertação], minha canção e a poesia...”

17 agosto, 2005

Os pássaros


Essa é uma música do CD novo dos Los Hermanos, o Quatro (não seria o quarto, é o Quatro mesmo, é o nome dele).
Como costumo dizer, a música pra ser boa depende do estado de espírito. De repente eu me peguei com o espírito meio "Passáros"... Acontece...
Pra quem ainda não ouviu, vale a pena.

Vai a letra:

"Os Pássaros (Rodrigo Amarante)

Eu aflito e só, confuso e sem você por aqui.
Assim eu sonhei mas isso eu não quis.
Que diferença? O dia se fez assim.
Há um conflito, um nó.
Eu difuso enfim os pássaros vêm me levar aí visitar o céu e pra ver você levantando o véu pra mim.
Mas eles só me vêem quando eu já não sei se eu estou são,
o que é um sonho ruim, o que é um sonho bom.
Que diferença? A vida é igual,
assim e eu não sei, eu não sei, eu não sei, eu não sei se isso é você.
Quem bate aí?
Se é pra te ver então deixa eu dormir."


Essa não é forma que estava no encarte do CD, e na realidade, o que à primeira vista poderia parecer um erro de digitação, pra mim, foi proposital. Postei diferente pra ficar mais fácil de ler e de entender, mas só por honestidade, deixo agora a forma original.

"os pássaros

euaflito e só,confuso e sem você por aqui.assim eu sonhei mas isso eu não quis.que
diferença?o dia se fez assim.há um conflito, um nóeu difuso enfim os pássaros vêmme
levar aívisitar océu e pra ver vocêlevantando o véu pra mim.mas eles só me vêemquando eu
já não seise eu estou são,o que é um sonho ruim,o que é um sonho bom.que diferença?a
vida é igual,assim eeu não seieunãoseieunãoseise isso é você.quem bate aí?
se é pra te verentão deixa
eudormir."

Até acho que a forma verdadeira é a melhor...

Pra quem está em Floripa, dia 28 será o show deles aqui no CIC. R$25,00 pra estudante. Se alguém for me encontrará lá!

Porque os olhos do delírio são outros...


Tenho certeza de que muitos que me conhecem e viram essa frase ou aqui ou no MSN podem estar se peguntando que loucura é essa. "Olhos do delírio?", indagam, "o que será que ele está fumando, ein?"... Mas sei que quem viu no MSN deve estar um pouco menos preocupado, lá a citação está bem feita. Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas, capítulo VI (se não me engano, e não esotu afim de olhar agora), "O Delírio".
Essa frase, entretanto, não me veio de uma leitura recente ou distante do Machado. Muitas vezes ao lermos um texto passamos um pouco despercebidos por ele. Não que seja o caso, mas foi entre uma e outra leitura de Apel (que Deus me defenda do primeiro capítulo!!), que abri um texto interessante: Lógica do Disparate. Se por um lado poderia dizer que é o que eu estava precisando ler, por outro lado foi complicado, pois agora vejo com outros olhos a realidade. Talvez com os olhos do delírio!
O autor, Bajonas Teixeira de Brito Júnior, foi meu professor de filosofia na UFES (bons tempos!). Essa foi sua tese de doutoramento, que eu, particularmente, achei fantástica. PENSAR de fato a realidade brasileira. Olhar, com os olhos atentos da filosofia, o disparate. Mas como fazer isso a partir de concepções europeizadas, que fazem parte desse disparate? Essa seria uma tarefa quase impossível: tentar falar do disparate se imaginando de fora, mas fazendo parte dele, estando integramente vinculado a ele, sendo ele! Não devemos pensar essa afirmativa como o simples fato de não conseguirmos a distância necessária do objeto, e mais outros discursos que poderiam ser rebatidos pelas concepções da hermenêutica filosófica de que o intérprete não é neutro e mais o que você quiser. A questão aqui é a seguinte: não é o simples fato de integrar o disparate, mas reproduzi-lo, mantê-lo, fazer parte de suas cadeias hierárquicas.
Por isso o autor buscou um método. Mas que método? Ahh meu Deus (de novo sendo invocado!), o que é um método? Buscar o que? O que os grandes interpretes do Brasil buscaram, a dialética? Não, esse método (e aqui a brincadeira fica por minha conta) estaria superado (na realidade não é superação, mas a dialética como oposição de dois lados que encontrariam sua posterior síntese não dá conta do disparate, não há oposição, mas convivência, dois lados distantes que nunca se tocam e ao mesmo tempo juntos que não se separam).
Ele brinca (eu gosto da brincadeira) e diz: "Em filosofia, ao contrário do que se pensa, as lesões por esforço repetitivo são mais frequentes que em qualquer outra ocupação. É dessa ordem, por exemplo, a seguinte deformação auditiva: se aparecem próximas as palavras senhor e escravo, infalivelmente o filósofo escuta 'dialética do senhor e do escravo!' Diante disso, não basta repetir, é preciso mesmo gritar: Não! Dialética não!, mas compensação e inversão de senhor e escravo! Ao que o filósofo indaga: Quê? Contradição e superação de senhor e escravo? Foi isso mesmo que você disse? Deixemo-lo aí, porque contra a força da surdez não há argumento."
É nessa perspectiva que ele tenta uma nova forma de abordagem: o delírio. "Porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo que se passava diante de mim." E ele que nos abre às ordens de disparidades. "Com a entrada no delírio bloqueia-se tanto a simulação quanto a dissimulação, tanto o silêncio quanto o berreiro, tanto o preceder quanto o ultrapassar. O delírio é, por assim dizer, o coração do disparate, porque sendo o estar-fora extremo, é o que há de mais interno, isto é, mais exterior, nas disparidades."
Com eles eu via tudo que se passava diante de mim... Há muito mais riqueza nisso do que na "metodologia tradicional". Estou cansado de métodos. Métodos de estudo, métodos de pesquisa, prazos, páginas... O que é isso tudo? De onde viemos e pra onde vamos? A pesquisa tem nos prendido em vez de nos libertar para o mundo do conhecimento... Não fazemos mais nada. Não produzimos mais nada. E nos preocupamos com cada coisa que tenha dó...
Por isso esse ponto me tocou: O DELÍRIO. Temos que estar aberto a ele também, ele pode ser o nosso guia (mesmo montados em hipopótamos correndo a toda velocidade). Isso eu digo de cadeira... A cada dia estou mais preso a métodos, a amarras. Às vezes me pego dando cada conselho para colegas (tanto da graduação como da pós)... Depois olho de volta pra mim e vejo como estou preso.
Acho ainda que é possível fazer um paralelo entre esse delírio e o real delírio. Afinal, alguém aqui se lembra das portas da percepção? Alguém já as abriu? Alguém já tentou se ver de longe? De cima, de baixo, de todos os lados? Imóvel como uma rocha e ao mesmo tempo girando como um furacão? Não sei, eu não (pelo menos não acho que tenha conseguido chegar lá). Admiro no entanto aqueles que o fizeram... Músicos, poetas, cientistas (sim, eles também!), escritores, e, falando sério, todos que conseguiram se libertar de todas suas amarras e ter contato direto com a criatividade. E mais uma, por favor não entendam isso como uma apologia ao chá de cogumelo. Cada um encontra seu delírio como quer (apesar d'o chá dar uma forcinha..).
Para chegar ao final desse meu delírio deixo mais uma frase marcante: "O autêntico pensamento do disparate, no duplo sentido do genitivo, é, pois, o delírio, que, recusando toda dissimulação, segue sem método pois é um des-caminho que, não se fundando nem na crítica nem na apologia, se erige sobre o arbítrio e a pretensão de supremacia."
Queria só lembrar que o livro ainda é bem mais rico que isso... essa foi só a forma de abordagem, imagine o resto... um dia ainda falo mais...
Agora, todavia, volto para Apel e para o meu método, fingindo que não li o livro, ou melhor, fingindo que tudo ficou como antes era...
Isso foi o que tinha para deixar nesse primeiro segundo post...

16 agosto, 2005

Prefácio?

No fim eu não consegui me libertar dessas amarras virtuais... Aderi a essa idéia de "blog"... Se tantos já o fizeram, por qual motivo não poderia eu, um viciado em tecnologia?

Agora vou aproveitar os momentos de solidão intelectual que o mestrado provoca para postar algumas coisas por aqui. E serão coisas quaisquer, o que me chamar a atenção, ou o que me der na telha. Se ninguém as ler, azar de todos! Continuarei postando até cansar...

Acho que vou gostar dessa brincadeira, afinal, se quase tenho feito de meu orkut um blog, é melhor usar a ferramenta correta...

Um abraço àqueles que se aventurarem por esses mares inóspitos...

Humberto