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17 agosto, 2005

Porque os olhos do delírio são outros...


Tenho certeza de que muitos que me conhecem e viram essa frase ou aqui ou no MSN podem estar se peguntando que loucura é essa. "Olhos do delírio?", indagam, "o que será que ele está fumando, ein?"... Mas sei que quem viu no MSN deve estar um pouco menos preocupado, lá a citação está bem feita. Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas, capítulo VI (se não me engano, e não esotu afim de olhar agora), "O Delírio".
Essa frase, entretanto, não me veio de uma leitura recente ou distante do Machado. Muitas vezes ao lermos um texto passamos um pouco despercebidos por ele. Não que seja o caso, mas foi entre uma e outra leitura de Apel (que Deus me defenda do primeiro capítulo!!), que abri um texto interessante: Lógica do Disparate. Se por um lado poderia dizer que é o que eu estava precisando ler, por outro lado foi complicado, pois agora vejo com outros olhos a realidade. Talvez com os olhos do delírio!
O autor, Bajonas Teixeira de Brito Júnior, foi meu professor de filosofia na UFES (bons tempos!). Essa foi sua tese de doutoramento, que eu, particularmente, achei fantástica. PENSAR de fato a realidade brasileira. Olhar, com os olhos atentos da filosofia, o disparate. Mas como fazer isso a partir de concepções europeizadas, que fazem parte desse disparate? Essa seria uma tarefa quase impossível: tentar falar do disparate se imaginando de fora, mas fazendo parte dele, estando integramente vinculado a ele, sendo ele! Não devemos pensar essa afirmativa como o simples fato de não conseguirmos a distância necessária do objeto, e mais outros discursos que poderiam ser rebatidos pelas concepções da hermenêutica filosófica de que o intérprete não é neutro e mais o que você quiser. A questão aqui é a seguinte: não é o simples fato de integrar o disparate, mas reproduzi-lo, mantê-lo, fazer parte de suas cadeias hierárquicas.
Por isso o autor buscou um método. Mas que método? Ahh meu Deus (de novo sendo invocado!), o que é um método? Buscar o que? O que os grandes interpretes do Brasil buscaram, a dialética? Não, esse método (e aqui a brincadeira fica por minha conta) estaria superado (na realidade não é superação, mas a dialética como oposição de dois lados que encontrariam sua posterior síntese não dá conta do disparate, não há oposição, mas convivência, dois lados distantes que nunca se tocam e ao mesmo tempo juntos que não se separam).
Ele brinca (eu gosto da brincadeira) e diz: "Em filosofia, ao contrário do que se pensa, as lesões por esforço repetitivo são mais frequentes que em qualquer outra ocupação. É dessa ordem, por exemplo, a seguinte deformação auditiva: se aparecem próximas as palavras senhor e escravo, infalivelmente o filósofo escuta 'dialética do senhor e do escravo!' Diante disso, não basta repetir, é preciso mesmo gritar: Não! Dialética não!, mas compensação e inversão de senhor e escravo! Ao que o filósofo indaga: Quê? Contradição e superação de senhor e escravo? Foi isso mesmo que você disse? Deixemo-lo aí, porque contra a força da surdez não há argumento."
É nessa perspectiva que ele tenta uma nova forma de abordagem: o delírio. "Porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo que se passava diante de mim." E ele que nos abre às ordens de disparidades. "Com a entrada no delírio bloqueia-se tanto a simulação quanto a dissimulação, tanto o silêncio quanto o berreiro, tanto o preceder quanto o ultrapassar. O delírio é, por assim dizer, o coração do disparate, porque sendo o estar-fora extremo, é o que há de mais interno, isto é, mais exterior, nas disparidades."
Com eles eu via tudo que se passava diante de mim... Há muito mais riqueza nisso do que na "metodologia tradicional". Estou cansado de métodos. Métodos de estudo, métodos de pesquisa, prazos, páginas... O que é isso tudo? De onde viemos e pra onde vamos? A pesquisa tem nos prendido em vez de nos libertar para o mundo do conhecimento... Não fazemos mais nada. Não produzimos mais nada. E nos preocupamos com cada coisa que tenha dó...
Por isso esse ponto me tocou: O DELÍRIO. Temos que estar aberto a ele também, ele pode ser o nosso guia (mesmo montados em hipopótamos correndo a toda velocidade). Isso eu digo de cadeira... A cada dia estou mais preso a métodos, a amarras. Às vezes me pego dando cada conselho para colegas (tanto da graduação como da pós)... Depois olho de volta pra mim e vejo como estou preso.
Acho ainda que é possível fazer um paralelo entre esse delírio e o real delírio. Afinal, alguém aqui se lembra das portas da percepção? Alguém já as abriu? Alguém já tentou se ver de longe? De cima, de baixo, de todos os lados? Imóvel como uma rocha e ao mesmo tempo girando como um furacão? Não sei, eu não (pelo menos não acho que tenha conseguido chegar lá). Admiro no entanto aqueles que o fizeram... Músicos, poetas, cientistas (sim, eles também!), escritores, e, falando sério, todos que conseguiram se libertar de todas suas amarras e ter contato direto com a criatividade. E mais uma, por favor não entendam isso como uma apologia ao chá de cogumelo. Cada um encontra seu delírio como quer (apesar d'o chá dar uma forcinha..).
Para chegar ao final desse meu delírio deixo mais uma frase marcante: "O autêntico pensamento do disparate, no duplo sentido do genitivo, é, pois, o delírio, que, recusando toda dissimulação, segue sem método pois é um des-caminho que, não se fundando nem na crítica nem na apologia, se erige sobre o arbítrio e a pretensão de supremacia."
Queria só lembrar que o livro ainda é bem mais rico que isso... essa foi só a forma de abordagem, imagine o resto... um dia ainda falo mais...
Agora, todavia, volto para Apel e para o meu método, fingindo que não li o livro, ou melhor, fingindo que tudo ficou como antes era...
Isso foi o que tinha para deixar nesse primeiro segundo post...

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