Enquanto uns manifestam e outros fecham as portas; enquanto brigam policiais, governo, secretarias, judiciário, uns jogando a responsabilidade por sobre os outros; existem algumas pessoas (frise-se que eu disse “pessoas”!) que são esquecidas no meio desse fogo cruzado. E no dia 10 de março penso que chegamos ao ápice disso na “carreata” que os policiais civis fizeram até o Palácio Anchieta.
Em uma das inúmeras reportagens sobre o assunto, um dos policiais havia comentado algo sobre levar alguns dos suspeitos sob custódia em camburões até a sede do Governo, mas confesso que no momento achei que fosse mais uma frase de efeito (e de muito mau gosto!), que nunca seria trazida à prática. Entretanto, sim, eles levaram dois camburões com dez pessoas em cada para a sua manifestação.
O que eu me pergunto é o que eles poderiam estar pensando ao fazer isso? Que como numa manifestação de garis eles estariam colocando lixo aos pés do Governador? Ou que levar essas pessoas em dois cubículos motorizados seria o mesmo que levar os carros, armas ou fardas sem condição de uso? Ou será que pensaram que, como numa manifestação de criadores de suínos, estariam levando seus porcos até lá? (Mas calma, acho que esses criadores teriam um cuidado e um respeito muito maior por seus animais do que os policiais tiveram para com aqueles sujeitos!).
É inadmissível pensar que alguém em sã consciência tenha tido a brilhante idéia de usar seres humanos para denunciar a superlotação das delegacias e para levar adiante picuinhas internas entre departamentos e secretarias. Será que para denunciar a tortura é preciso colocar alguém num pau-de-arara em frente ao Palácio Anchieta? A única lógica que há nisso tudo é da completa falta de lógica.
Mas é que o centro desse debate não são melhores condições para os que estão enjaulados (já que esses são tidos como a escória da sociedade, mesmo quando nem julgados foram), e sim disputas entre um departamento e outro, problemas particulares entre alguns poucos, e a velha e estúpida falta de comunicação e de integração entre os diversos setores responsáveis pela segurança pública.
No entanto não quero ser injusto e não reconhecer que de fato há uma legítima reivindicação por melhores condições de trabalho e melhores salários. Claro que é bem difícil para os policiais civis e militares trabalharem com a infra-estrutura precária que eles possuem. Entretanto, convenhamos, eu não queria nem de longe estar na pele de um daqueles 30, 40, 70 (e quem sabe quantos?) que estão amontoados no espaço que deveria comportar 20, 10 ou 5... Se queriam fazer alguma coisa pela superlotação que soltassem os suspeitos! Se não há espaço, que sejam feitas suas autuações e depois sejam eles postos em liberdade. Fazem isso todos os dias com criminosos muito piores (mas cuja diferença principal está no uso de terno e gravata), não iria fazer diferença. Não mesmo!
O problema é que existe uma periferia da sociedade que é tratada como dejeto. Dejetos humanos. Quando são eles que estão na linha de frente, tudo é permitido, inclusive rodar pela cidade de Vitória dentro de um carro sem janelas e sem a possibilidade nem de usar um banheiro, simplesmente por conta de uma “manifestação”. Afinal, eles são o exemplo. Eles são os bichos-papões que usamos para assustar as criancinhas. “Olhe meu filho, se você fumar maconha vai virar marginal igualzinho aquele cara lá. Vai roubar, vai matar e ser preso”. Mas o que esquecem é que nenhuma criança acredita em Papai Noel para sempre, e bem cedo ela descobre que se não faz parte daquela casta nada acontece. Ela poderá praticar suas ilegalidades quase que para sempre que, mesmo quando algo fugir dessa (i)lógica ela não estará sujeita ao zoológico humano que vemos na televisão (ou será que José Carlos Gratz, quando estava preso na Praia do Canto, também dividia sua cela com mais trinta pessoas e passeava de camburão?).
O que esquecem, no fundo, é que essa violência que chega todos os dias nos vidros de nossos carros, nas nossas carteiras desaparecidas e nos relógios já perdidos é simplesmente o outro lado da desigualdade que grita “Estamos aqui!” para sair de sua eterna invisibilidade. Se chamamos essas pessoas de monstros, nos esquecemos que elas são nossos “frankensteins”. Aqueles monstros que nós criamos e que, invariavelmente, irão se voltar contra seus criadores.
Acho, entretanto que, o mínimo que podemos fazer, é pensar que aqueles que tratamos como dejetos, são humanos que, como todos dessa espécie, têm direitos historicamente consagrados. Claro que é mais fácil esconder a sujeira debaixo do tapete que limpar a casa. Mas enquanto todos não se chamam às próprias responsabilidades, é essencial que alguém dê um grito para lembrar que no meio de toda a confusão existem pessoas, ainda que sempre as olhemos por debaixo de um “véu de invisibilidade”.
Em uma das inúmeras reportagens sobre o assunto, um dos policiais havia comentado algo sobre levar alguns dos suspeitos sob custódia em camburões até a sede do Governo, mas confesso que no momento achei que fosse mais uma frase de efeito (e de muito mau gosto!), que nunca seria trazida à prática. Entretanto, sim, eles levaram dois camburões com dez pessoas em cada para a sua manifestação.
O que eu me pergunto é o que eles poderiam estar pensando ao fazer isso? Que como numa manifestação de garis eles estariam colocando lixo aos pés do Governador? Ou que levar essas pessoas em dois cubículos motorizados seria o mesmo que levar os carros, armas ou fardas sem condição de uso? Ou será que pensaram que, como numa manifestação de criadores de suínos, estariam levando seus porcos até lá? (Mas calma, acho que esses criadores teriam um cuidado e um respeito muito maior por seus animais do que os policiais tiveram para com aqueles sujeitos!).
É inadmissível pensar que alguém em sã consciência tenha tido a brilhante idéia de usar seres humanos para denunciar a superlotação das delegacias e para levar adiante picuinhas internas entre departamentos e secretarias. Será que para denunciar a tortura é preciso colocar alguém num pau-de-arara em frente ao Palácio Anchieta? A única lógica que há nisso tudo é da completa falta de lógica.
Mas é que o centro desse debate não são melhores condições para os que estão enjaulados (já que esses são tidos como a escória da sociedade, mesmo quando nem julgados foram), e sim disputas entre um departamento e outro, problemas particulares entre alguns poucos, e a velha e estúpida falta de comunicação e de integração entre os diversos setores responsáveis pela segurança pública.
No entanto não quero ser injusto e não reconhecer que de fato há uma legítima reivindicação por melhores condições de trabalho e melhores salários. Claro que é bem difícil para os policiais civis e militares trabalharem com a infra-estrutura precária que eles possuem. Entretanto, convenhamos, eu não queria nem de longe estar na pele de um daqueles 30, 40, 70 (e quem sabe quantos?) que estão amontoados no espaço que deveria comportar 20, 10 ou 5... Se queriam fazer alguma coisa pela superlotação que soltassem os suspeitos! Se não há espaço, que sejam feitas suas autuações e depois sejam eles postos em liberdade. Fazem isso todos os dias com criminosos muito piores (mas cuja diferença principal está no uso de terno e gravata), não iria fazer diferença. Não mesmo!
O problema é que existe uma periferia da sociedade que é tratada como dejeto. Dejetos humanos. Quando são eles que estão na linha de frente, tudo é permitido, inclusive rodar pela cidade de Vitória dentro de um carro sem janelas e sem a possibilidade nem de usar um banheiro, simplesmente por conta de uma “manifestação”. Afinal, eles são o exemplo. Eles são os bichos-papões que usamos para assustar as criancinhas. “Olhe meu filho, se você fumar maconha vai virar marginal igualzinho aquele cara lá. Vai roubar, vai matar e ser preso”. Mas o que esquecem é que nenhuma criança acredita em Papai Noel para sempre, e bem cedo ela descobre que se não faz parte daquela casta nada acontece. Ela poderá praticar suas ilegalidades quase que para sempre que, mesmo quando algo fugir dessa (i)lógica ela não estará sujeita ao zoológico humano que vemos na televisão (ou será que José Carlos Gratz, quando estava preso na Praia do Canto, também dividia sua cela com mais trinta pessoas e passeava de camburão?).
O que esquecem, no fundo, é que essa violência que chega todos os dias nos vidros de nossos carros, nas nossas carteiras desaparecidas e nos relógios já perdidos é simplesmente o outro lado da desigualdade que grita “Estamos aqui!” para sair de sua eterna invisibilidade. Se chamamos essas pessoas de monstros, nos esquecemos que elas são nossos “frankensteins”. Aqueles monstros que nós criamos e que, invariavelmente, irão se voltar contra seus criadores.
Acho, entretanto que, o mínimo que podemos fazer, é pensar que aqueles que tratamos como dejetos, são humanos que, como todos dessa espécie, têm direitos historicamente consagrados. Claro que é mais fácil esconder a sujeira debaixo do tapete que limpar a casa. Mas enquanto todos não se chamam às próprias responsabilidades, é essencial que alguém dê um grito para lembrar que no meio de toda a confusão existem pessoas, ainda que sempre as olhemos por debaixo de um “véu de invisibilidade”.
Um comentário:
Ei Humberto
Parabéns pela sua mensagem, você prova que tem uma conduta de ser humano, fico lisongeada de ter um filho com esses pensamentos.
Beijinhos
Mame
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