
... apesar de haver tanto desencontro pela vida.
Mais uma do grande poeta Vinícius. Mais uma que deve ser lembrada. A arte é do encontro, mas o acaso torce pelo desencontro. Atualmente é de desencontros que o mundo se move. Ninguém mais acorda, dorme, almoça, janta, ao lado de outra pessoa. Cada um com seu horário, cada um com seu comprometimento, cada um com sua vida! Seria uma grande ilusão pensar naqueles dois que olhariam juntos para o teto vendo o tempo passar... Para to teto??? Tempo passar???? Tempo é dinheiro!!!! Não o tempo livre, mas o tempo ocupado. Então o que fazemos? Anulamos todo o tempo livre, o transformamos em tempo ocupado e fazemos mais dinheiro! Onde fica agora a diferença pra escravidão? O máximo que poderiam dizer é que mudamos de senhor (o que eu ainda me pergunto se é verdade mesmo).
Lembro do poema de Zé da Luz. Um cordel maravilhoso. “Ai se sesse”. “Se um dia nóis se gostasse / Se um dia nóis se queresse / Se nóis dois se empareasse / Se juntim nós dois vivesse / Se juntim nóis dois morasse / Se juntim nós dois drumisse / Se juntim nois dois vivesse...”
Que nostalgia de um tempo que não vivi! Imagine Zé da Luz em São Paulo? “Se juntim nóis dois se engarrafasse”? “Se juntim nóis dois corresse”? Ou “Se juntim nóis dois se desencontrasse”?
Fica o paradoxo para vocês!
Hoje quando acordei vi uma reportagem sobre bailarinas. Que leveza... Sempre fico meio abobado ao ver uma apresentação de ballet. Ainda mais quando disseram – o que já se imagina – que os movimentos que uma bailarina faz não foram projetados para o nosso corpo. Ninguém foi feito para esticar tanto as pernas, para se curvar tanto, para dançar na ponta dos pés (com aquele pedaço de gesso na sapatilha, pra quem não sabe!).
Mas em meio à beleza da dança, a correria dos bastidores, as horas incansáveis de ensaio, treinos intermináveis... O horário nunca combina... Imagine uma bailarina que dança, trabalha, estuda, arruma casa, tem compromisso, vai ao mercado, ao dentista, ao médico, tem prova amanhã à noite, mas uma reunião importantíssima pela manhã... Ahhh, e meu ensaio??? A apresentação é no sábado!!!!
Por isso que ao lembrar de bailarinas, lembro do Chico Buarque. “Só a bailarina que não tem...”. Aposto que você pensou nessa música! Errou, nunca lembro dessa. Lembro de “Ela é dançarina”:
“O nosso amor é tão bom
O horário é que nunca combina
Eu sou funcionário
Ela é dançarina
Quando pego o ponto
Ela termina
Ou: quando abro o guichê
É quando ela abaixa a cortina
Eu sou funcionário
Ela é dançarina
Abro o meu armário
Salta serpentina
Nas questões de casal
Não se fala mal da rotina
Eu sou funcionário
Ela é dançarina
Quando caio morto
Ela empina
Ou quando eu tchum no colchão
É quando ela tchan no cenário
Ela é dançarina
Eu sou funcionário
O seu planetário
Minha lamparina
No ano dois mil e um
Se juntar algum
Eu peço licença
E a dançarina, enfim
Já me jurou
Que faz o show
Pra mim”
Se 2001 já passou, devo esperar 2021?
É a arte do encontro? Mas tem muito desencontro pela vida...
Hoje não me preocupo mais. Cito de novo Vinicius (ou Toquinho, não sei bem depois de tanta simbiose. Devem ser os dois mesmo!). “Eu não ando só, só ando em boa companhia, com meu violão, [a dissertação], minha canção e a poesia...”
3 comentários:
Ai meu Deus... as bailarinas. Às bailarinas... Masoquistas e sádicas, das quais o público alvo são outros masoquistas. Talvez mais masoquistas que as próprias.
E desencontrando cansamos do vício e nos atiramos a outros. A gente cansa. Pára. E começa a lamber os beiços depois de comer a vida.
Eu to é mesmo crente na minha cura, é na fadiga do vento que o veneno circula. Nação Zumbi.
Sua página tá linda...linda mesmo, sério. Arte de primeira. Meu próximo show é domingo agora. Noite de lua cheia. E você está na primeira fila anestesiado. Um dia a gente cansa e esquece.
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